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1 de setembro de 2026

health journal

Cifose de Scheuermann típica e atípica: sintomas, diagnóstico e tratamento

Dr. Thiego Araújo - Ortopedista especialista em coluna MEO Medicina

Por:

A cifose de Scheuermann, também conhecida como doença de Scheuermann, é uma alteração estrutural do crescimento da coluna que geralmente se manifesta durante a adolescência. Ela provoca um aumento da curvatura da coluna, que tende a ser mais rígida e pode acometer principalmente as regiões torácica e toracolombar e, com menor frequência, a lombar.
Diferentemente da cifose postural, que pode melhorar com a correção voluntária da postura, a cifose de Scheuermann está relacionada a alterações na forma dos corpos vertebrais e não desaparece completamente com a extensão da coluna. A condição pode ser classificada em duas formas principais: típica e atípica.

O que é a cifose de Scheuermann?

Vista de lado, a coluna torácica apresenta naturalmente uma curvatura para a frente denominada cifose. Em geral, valores entre aproximadamente 20 e 45 graus são considerados fisiológicos, embora existam variações relacionadas à idade e ao método de medição.

Na doença de Scheuermann, ocorre alteração do crescimento das placas terminais vertebrais. A parte anterior de algumas vértebras cresce menos do que a parte posterior, produzindo vértebras em formato de cunha e uma cifose estrutural.

Nas radiografias também podem aparecer:

  • irregularidades das placas terminais;

  • redução da altura dos discos;

  • nódulos de Schmorl, formados quando parte do disco intervertebral penetra na placa terminal;

  • aumento da cifose torácica ou toracolombar;

  • alterações compensatórias, como aumento da lordose cervical e lombar.

A presença isolada de um nódulo de Schmorl não é suficiente para estabelecer o diagnóstico, pois esse achado também pode ocorrer em pessoas sem a doença.


Cifose de Scheuermann típica

A forma típica acomete principalmente a coluna torácica e apresenta uma curvatura mais longa, arredondada e rígida. O ápice costuma localizar-se entre as vértebras T7 e T9.

O critério radiográfico clássico de Sørensen exige o cunhamento anterior igual ou superior a 5 graus em pelo menos três vértebras consecutivas. Outros achados, como irregularidades das placas terminais, nódulos de Schmorl e redução dos espaços discais, reforçam o diagnóstico.


Doença de Scheuermann atípica

A forma atípica acomete principalmente a região toracolombar ou lombar. Ela pode apresentar pouca hipercifose visível, mas alterações mais localizadas das placas terminais e dos discos.

Como frequentemente não existem três vértebras consecutivas com o cunhamento clássico, o diagnóstico depende da associação entre sintomas, localização das alterações e achados radiográficos. Não existe um único critério diagnóstico universalmente aceito para a forma atípica.

Essa apresentação pode ser confundida com alterações posturais, lesões por sobrecarga, discopatias, espondilólise ou outras causas de dor lombar no adolescente.


A doença é frequente?

A prevalência relatada varia amplamente, aproximadamente entre 0,4% e 8% da população, dependendo dos critérios utilizados. A condição costuma ser identificada após os 10 anos, principalmente durante ou logo após o estirão de crescimento.

Estudos apresentam resultados diferentes quanto à distribuição entre os sexos. Algumas séries demonstram discreto predomínio masculino, enquanto outras encontram frequência semelhante entre meninos e meninas.

Uma escoliose discreta pode coexistir em cerca de 20% a 30% dos casos, mas geralmente não representa a principal deformidade.


Quais são as causas?

A causa exata permanece desconhecida. As evidências atuais indicam uma origem multifatorial, envolvendo uma combinação de:

  • predisposição genética;

  • alterações no crescimento das placas terminais;

  • fatores biomecânicos;

  • crescimento rápido durante a adolescência;

  • características individuais da matriz óssea e do disco intervertebral.

A doença pode ocorrer em diferentes membros de uma mesma família, mas não existe um padrão hereditário simples nem um único gene responsável.

Atividades esportivas, postura inadequada, mochila pesada ou pequenos traumas não são considerados causas isoladas comprovadas. Cargas mecânicas repetitivas podem atuar como fatores contribuintes em pessoas predispostas, especialmente na forma toracolombar, mas essa relação ainda não está completamente esclarecida.


Quais são os sintomas?

A manifestação pode variar desde uma alteração estética sem dor até deformidade progressiva com limitação funcional. Os sintomas mais frequentes incluem:

  • aumento da curvatura das costas;

  • ombros projetados para a frente;

  • postura inclinada;

  • dor torácica, toracolombar ou lombar;

  • fadiga da musculatura das costas;

  • rigidez da coluna;

  • encurtamento da musculatura posterior das coxas;

  • dificuldade para permanecer sentado ou em pé por períodos prolongados;

  • desconforto com atividades físicas;

  • insatisfação com a aparência corporal.

Na forma típica, a dor costuma ocorrer no ápice da cifose ou na região lombar, devido ao aumento compensatório da lordose. Na forma atípica, a dor toracolombar ou lombar pode ser mais proeminente do que a deformidade visível.

Alterações neurológicas são raras. Fraqueza, perda de sensibilidade, dificuldade para caminhar, alterações urinárias ou intestinais, dor noturna intensa e perda de peso são sinais de alerta e exigem investigação imediata.


Como diferenciar a cifose de Scheuermann da má postura?

Na cifose postural, a curvatura é flexível e melhora significativamente quando o adolescente é orientado a "endireitar as costas" ou quando realiza a hiperextensão da coluna.

Na cifose de Scheuermann, a deformidade é estrutural e relativamente rígida. Mesmo com esforço voluntário, não ocorre correção completa. Nas radiografias, também existem alterações na forma das vértebras, ausentes na cifose postural.

A postura inadequada pode tornar a deformidade mais evidente, mas não é a causa primária das alterações vertebrais.


Como é feito o diagnóstico?

O diagnóstico envolve histórico clínico, exame físico e radiografias.

Durante a avaliação, o médico observa:

  • o formato e a localização da cifose;

  • a flexibilidade da curva;

  • o equilíbrio global do tronco;

  • a lordose cervical e lombar;

  • a presença de escoliose associada;

  • a força, os reflexos e a sensibilidade;

  • o estágio de crescimento esquelético.

As radiografias panorâmicas da coluna em pé, nas incidências frontal e lateral, são os principais exames. Elas permitem medir a cifose pelo método de Cobb e identificar cunhamento vertebral, irregularidades das placas terminais, nódulos de Schmorl e alterações discais.

Uma radiografia lateral em hiperextensão pode ajudar a determinar a flexibilidade da deformidade, principalmente no planejamento do tratamento.

A ressonância magnética não é obrigatória em todos os casos. Ela pode ser indicada quando existem:

  • sintomas neurológicos;

  • dor intensa ou atípica;

  • suspeita de hérnia de disco ou compressão medular;

  • dúvida diagnóstica;

  • progressão incomum;

  • planejamento cirúrgico.

Como é realizado o tratamento?

O tratamento deve ser individualizado. Não existe um único valor angular que determine sozinho a melhor conduta. Devem ser considerados a idade, o crescimento restante, a localização e rigidez da curva, sua progressão, a intensidade da dor e o impacto funcional e estético.


Observação

Pode ser indicada para adolescentes com curvas menores, pouco sintomáticas e sem progressão, assim como para adultos com deformidade estável e sintomas leves.

O acompanhamento durante o crescimento é importante porque a progressão ocorre principalmente no estirão de crescimento, embora algumas curvas possam continuar aumentando lentamente na vida adulta.


Fisioterapia e exercícios

A fisioterapia tem como principais objetivos:

  • fortalecer os músculos extensores da coluna e do tronco;

  • melhorar a resistência muscular;

  • alongar a musculatura peitoral, os flexores do quadril e os músculos posteriores das coxas;

  • melhorar a mobilidade e a consciência postural;

  • reduzir a dor e melhorar a função.

Os exercícios podem melhorar postura, mobilidade, condicionamento e sintomas. Entretanto, isoladamente, não costumam modificar de forma significativa o formato ósseo de uma cifose rígida já estabelecida.

A prática de exercícios e esportes geralmente é permitida e benéfica. Restrições devem ser individualizadas quando houver dor importante, lesões associadas ou sintomas neurológicos.


Medicamentos

Analgésicos e anti-inflamatórios podem ser utilizados por períodos limitados para controle da dor, sempre com orientação profissional. Eles tratam o sintoma, mas não corrigem a deformidade.


Colete ortopédico

O colete apresenta maior possibilidade de modificar a evolução da curva quando utilizado em adolescentes que ainda possuem crescimento significativo.

Ele pode ser considerado principalmente em curvas moderadas, frequentemente entre aproximadamente 50 e 75 graus, embora a indicação dependa da rigidez, da progressão e da maturidade esquelética.

O objetivo é impedir a progressão e, em alguns pacientes, obter correção parcial por meio do crescimento vertebral remanescente. O resultado depende de:

  • início antes do término do crescimento;

  • flexibilidade da curva;

  • adaptação adequada do colete;

  • número de horas de uso;

  • adesão do adolescente ao tratamento.

Após a maturidade esquelética, o colete geralmente apresenta menor capacidade de corrigir a deformidade, embora possa ser utilizado seletivamente para auxiliar no controle dos sintomas.


Tratamento cirúrgico

A cirurgia é reservada para uma minoria dos pacientes. Pode ser considerada nos casos de:

  • deformidade grave e progressiva;

  • cifose geralmente acima de 70–80 graus, conforme o contexto clínico;

  • dor incapacitante que persiste apesar de tratamento conservador adequado;

  • deformidade com grande impacto funcional ou psicossocial;

  • desequilíbrio importante do tronco;

  • compressão da medula ou déficit neurológico;

  • comprometimento cardiopulmonar relacionado a deformidades extremas.

O ângulo da cifose não deve ser utilizado isoladamente para indicar uma operação. A decisão exige análise do paciente como um todo e discussão cuidadosa dos benefícios e riscos.

Atualmente, a maioria das correções é realizada por via posterior, utilizando parafusos pediculares, manobras de correção e artrodese. Abordagens combinadas anteriores e posteriores são menos frequentes e ficam reservadas para situações específicas.

O objetivo não é deixar a coluna completamente reta, mas restaurar um alinhamento equilibrado e seguro. A correção excessiva pode aumentar o risco de complicações, especialmente cifose juncional e lesão neurológica.


A cifose pode causar problemas respiratórios ou neurológicos?

Essas complicações são raras nas deformidades leves ou moderadas.

Alterações respiratórias clinicamente importantes são observadas principalmente em cifoses torácicas extremas, geralmente próximas ou superiores a 100 graus. Portanto, não é correto afirmar que todo paciente com Scheuermann desenvolverá dificuldade respiratória.

A compressão neurológica também é incomum, mas pode ocorrer em casos graves, especialmente quando existe hérnia de disco torácica, cisto epidural, estenose do canal ou deformidade muito acentuada.


O que acontece a longo prazo?

A maioria das pessoas com cifose de Scheuermann leve ou moderada mantém boa capacidade funcional. A dor nas costas pode ser mais frequente do que na população geral, mas a intensidade da dor nem sempre apresenta relação direta com o grau da cifose.

Estudos recentes sobre a história natural indicam que algumas curvas continuam progredindo lentamente após o término do crescimento. Mesmo assim, deformidades menores que 100 graus geralmente apresentam evolução relativamente benigna, especialmente quando não existem alterações neurológicas ou cardiopulmonares.

A forma atípica toracolombar pode estar associada a maior sobrecarga dos discos e alterações degenerativas mais precoces. Por isso, pacientes sintomáticos devem ser acompanhados mesmo quando a deformidade externa é discreta.


Conclusão

A cifose de Scheuermann é uma deformidade estrutural do crescimento, e não simplesmente uma consequência de "má postura". A forma típica acomete principalmente a coluna torácica e provoca uma cifose mais evidente, enquanto a forma atípica predomina na região toracolombar ou lombar e pode se manifestar sobretudo por dor.


A maioria dos pacientes pode ser tratada de maneira conservadora, com acompanhamento, exercícios, fisioterapia e, durante o crescimento, colete ortopédico em casos selecionados. A cirurgia é reservada para deformidades graves, progressivas ou associadas a sintomas importantes.

Se você ou seu filho apresenta aumento da curvatura das costas, rigidez ou dor persistente, procure um especialista em coluna para estabelecer o diagnóstico correto e definir o tratamento mais adequado.


Este conteúdo tem finalidade educativa e não substitui uma avaliação médica individualizada.

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