1 de julho de 2026
health journal
É lesão ou não é? Entendendo os principais fatores da lesão muscular
Por Gustavo Gonçalves - Coordenador da Fisioterapia MEO Medicina
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A lesão muscular pode variar desde um estiramento leve até a ruptura completa do músculo ou tendão, e um diagnóstico preciso é fundamental para definir o tratamento mais adequado. A recuperação deve ser baseada em uma reabilitação progressiva, com fortalecimento, exercícios específicos e retorno gradual às atividades. Com acompanhamento especializado, é possível reduzir o risco de novas lesões, acelerar a recuperação e voltar ao esporte ou à rotina com mais segurança.
O que acontece quando o músculo "falha"?
Quase todo mundo que pratica esportes ou mantém uma vida ativa já sentiu aquela fisgada repentina ou um "puxão" que interrompe o movimento. No entanto, o que chamamos genericamente de "lesão muscular" é, na verdade, um universo complexo de diferentes danos em tecidos distintos. Para entender como voltamos à atividade, precisamos primeiro entender o que quebrou. Imagine o seu músculo como um cabo de aço encapado: ele tem uma capa externa (a fáscia), as fibras musculares propriamente ditas e um núcleo central mais rígido que se transforma no tendão. Dependendo de onde e quanto esse "cabo" desfiou, o tempo e o tipo de tratamento mudam completamente.
O "GPS" da lesão: A Classificação BAMIC
Para que médicos e fisioterapeutas falem a mesma língua, utilizamos um sistema chamado BAMIC (Classificação de Lesões Musculares da British Athletics). Esse sistema funciona como um GPS que nos diz a gravidade e a localização exata do problema. A gravidade é medida em graus de 0 a 4. O Grau 0 é aquela dor muscular após um treino intenso, onde não há rasgo, apenas um "estresse" excessivo. O Grau 1 é um pequeno dano; o Grau 2 é uma lesão moderada; o Grau 3 é uma lesão extensa e o Grau 4 é a ruptura total do músculo ou tendão.
Mas a grande revelação deste sistema é a "letra" que acompanha o grau, que indica onde a lesão aconteceu. Se a lesão for "a" (miofascial), ela ocorreu na periferia do músculo, na sua "capa". Essas costumam cicatrizar mais rápido. Se for "b" (junção músculo-tendão), ocorreu onde o músculo começa a virar tendão, o local mais comum de lesões. Agora, se a letra for "c" (intratendinosa), o dano atingiu o tendão que entra para dentro do músculo. Estas são as mais delicadas, pois o tendão não tem o mesmo suprimento de sangue que o músculo e demora muito mais para se recuperar.
A ciência da cicatrização e o movimento
Muitas pessoas acreditam que o repouso absoluto é o melhor remédio, mas a ciência moderna nos mostra o contrário. O processo de cura passa por fases: primeiro a inflamação, depois a reparação (onde o corpo cria uma "cicatriz" de colágeno) e, por fim, a remodelagem. O segredo para uma boa recuperação é o que chamamos de mecanotransdução. Esse nome complicado significa apenas que o movimento controlado "avisa" às células que elas precisam organizar as novas fibras de forma alinhada e forte. Sem o estímulo correto, a cicatriz fica desorganizada e fraca, aumentando o risco de você se machucar novamente no mesmo lugar.
Os pilares para voltar ao jogo
A reabilitação de alto nível não se baseia em esperar a dor passar, mas em cumprir etapas fundamentais. O primeiro passo é o diagnóstico preciso, muitas vezes usando exames como ressonância magnética para saber se o tendão (a letra "c") foi afetado. Depois, o tratamento deve ser uma decisão compartilhada entre o profissional e o paciente, alinhando expectativas sobre o tempo de afastamento. O coração da melhora está na progressão de carga: começamos com exercícios onde o músculo não muda de tamanho (isométricos), passamos para movimentos lentos com peso e chegamos aos movimentos explosivos.
Além disso, o treino deve ser específico. Se você corre, sua reabilitação precisa envolver corrida em algum momento, e não apenas exercícios deitado em uma maca. O objetivo final é o Retorno ao Treinamento Completo. Para chegar lá, não olhamos o calendário, mas sim o desempenho: você recuperou a força? Consegue correr na velocidade máxima sem dor? Seus testes de salto estão equilibrados? Só então o sinal verde é dado.
Implicações no dia a dia e prevenção
Uma lesão muscular não afeta apenas o esporte; ela muda a rotina. Lesões de grau 2 ou 3 podem dificultar tarefas simples como dirigir, subir escadas ou carregar compras. O mais importante é entender que a dor é apenas a ponta do iceberg. Muitas vezes a dor some em poucos dias, mas o tecido ainda está frágil. Respeitar os critérios de alta é o que diferencia um atleta que volta e brilha de um que vive sofrendo recaídas. A prevenção passa por manter o músculo forte e resiliente para suportar as cargas que você impõe a ele, seja em uma maratona ou em uma partida de futebol no final de semana.
Nota: Este conteúdo é baseado no modelo de classificação e reabilitação de McDonald et al. (2019). Sempre consulte um fisioterapeuta ou médico especializado para avaliar o seu caso específico.

