25 de agosto de 2026
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Escoliose idiopática do adolescente: diagnóstico precoce e tratamento adequado
Dr. Thiego Araújo - Ortopedista especialista em coluna MEO Medicina
Por:

A escoliose idiopática do adolescente é o tipo mais comum de escoliose e consiste em uma deformidade tridimensional da coluna que surge ou é identificada após os 10 anos de idade, geralmente durante o crescimento acelerado. É caracterizada por uma curva com ângulo de Cobb igual ou superior a 10 graus, associada à rotação das vértebras, não sendo apenas um “desvio lateral”. O termo “idiopática” indica que não existe uma causa única conhecida, sendo a condição considerada complexa e multifatorial, influenciada por fatores genéticos, biológicos e relacionados ao crescimento. Manifesta-se entre os 10 anos de idade e o término do crescimento esquelético, com maior risco de progressão durante o estirão de crescimento.
A escoliose é frequente?
A escoliose idiopática do adolescente acomete aproximadamente 1% a 3% dos jovens. A maioria apresenta curvas pequenas, que não causam sintomas importantes e podem necessitar apenas de acompanhamento.
Curvas leves ocorrem em ambos os sexos. Entretanto, as meninas apresentam risco significativamente maior de progressão e representam a maior parte dos casos que necessitam de colete ou cirurgia. Nas curvas de maior magnitude, essa diferença pode chegar a aproximadamente sete a dez meninas para cada menino.
Existe também uma importante influência genética. A doença é mais frequente entre familiares de pessoas com escoliose e apresenta maior concordância entre gêmeos idênticos do que entre gêmeos não idênticos. Entretanto, não existe um único "gene da escoliose", e a presença da doença em um familiar não significa que todos os demais necessariamente a desenvolverão.
Existem outras causas de escoliose?
Sim. Embora a forma idiopática seja a mais frequente na adolescência, a escoliose também pode estar associada a:
malformações congênitas das vértebras;
doenças neuromusculares, como paralisia cerebral e distrofias musculares;
síndromes e doenças do tecido conjuntivo, como síndrome de Marfan e síndrome de Ehlers-Danlos;
doenças da medula espinhal;
tumores, infecções ou alterações metabólicas;
desgaste da coluna na vida adulta, denominado escoliose degenerativa.
Por isso, a avaliação médica é importante para confirmar que se trata realmente de uma escoliose idiopática e excluir causas secundárias.
Como perceber os sinais de escoliose?
A escoliose frequentemente não provoca dor e pode ser percebida inicialmente pelas alterações na simetria do corpo. Os sinais mais comuns são:
um ombro mais alto que o outro;
uma escápula mais proeminente;
assimetria da cintura;
quadris aparentemente desnivelados;
inclinação do tronco para um dos lados;
maior saliência das costelas de um lado quando o adolescente se inclina para a frente;
roupas que parecem ficar tortas no corpo.
O teste de inclinação anterior do tronco, conhecido como teste de Adams, pode revelar a rotação do tórax ou da região lombar. O escoliômetro auxilia na avaliação dessa assimetria, mas não substitui o exame médico nem a radiografia quando ela estiver indicada.
Dor intensa, dor noturna, fraqueza, alterações de sensibilidade, dificuldade para caminhar, perda do controle urinário ou intestinal e curvas com características incomuns não são manifestações típicas da escoliose idiopática e exigem investigação mais detalhada.
Como é feito o diagnóstico?
O primeiro passo é a avaliação clínica por um médico com experiência em doenças da coluna. O especialista examina o alinhamento do tronco, o equilíbrio dos ombros e da pelve, a rotação do tórax, o estágio de crescimento e o exame neurológico.
Quando existe suspeita clínica relevante, o diagnóstico é confirmado por radiografias panorâmicas da coluna realizadas em pé. O exame permite medir o ângulo de Cobb, avaliar o padrão da curva, o equilíbrio global da coluna e a maturidade esquelética.
A ressonância magnética não é necessária em todos os casos. Ela pode ser solicitada quando existem alterações neurológicas, dor atípica, progressão incomum ou determinados padrões de curva que levantem suspeita de uma causa secundária.
Toda escoliose precisa de tratamento?
Não. O tratamento é individualizado e depende principalmente:
do ângulo da curva;
da idade e do crescimento restante;
da velocidade de progressão;
do padrão e da localização da curva;
do equilíbrio do tronco;
dos sintomas e do impacto sobre a imagem corporal;
das características individuais do paciente.
De maneira geral, as possibilidades incluem:
Observação: normalmente indicada para curvas pequenas e com baixo risco de progressão. O acompanhamento periódico permite verificar se a curva permanece estável durante o crescimento.
Exercícios específicos para escoliose: programas fisioterápicos estruturados, como os exercícios tridimensionais específicos para escoliose, podem melhorar o controle postural, a função, a percepção corporal e a qualidade de vida. Estudos recentes também sugerem um efeito favorável sobre a progressão de algumas curvas, embora a certeza dessa evidência ainda seja limitada. Esses exercícios devem ser individualizados e não substituem o colete quando ele está indicado.
Colete: é utilizado principalmente em adolescentes que ainda estão crescendo e apresentam curvas moderadas, frequentemente entre 25 e 40–45 graus, ou curvas menores que demonstram progressão. Seu objetivo principal é impedir ou reduzir o avanço da deformidade, e não necessariamente deixar a coluna completamente reta. O resultado depende da indicação correta, da qualidade do colete e do número de horas de uso. O estudo BrAIST demonstrou que o tratamento com colete reduz significativamente o risco de progressão até a faixa de indicação cirúrgica, com melhor resposta quanto maior a adesão ao uso.
Cirurgia: pode ser considerada quando a curva é grave ou continua progredindo apesar do tratamento conservador, geralmente ao redor de 45 a 50 graus. A indicação não depende apenas de um número: devem ser considerados o crescimento restante, o padrão da deformidade, o equilíbrio do tronco, o risco de progressão futura e o impacto sobre a qualidade de vida.
Por que o diagnóstico no momento adequado é importante?
O maior risco de progressão ocorre quando o adolescente ainda tem bastante crescimento pela frente. Uma curva relativamente pequena pode evoluir rapidamente durante o estirão de crescimento.
O objetivo não é realizar radiografias ou tratamentos desnecessários em todos os adolescentes, mas reconhecer precocemente aqueles que apresentam maior risco de progressão. Isso permite acompanhar a curva e iniciar o tratamento conservador no momento em que ele tem maior possibilidade de sucesso.
Não existe consenso universal sobre o rastreamento de todos os adolescentes sem sinais ou sintomas. Entretanto, qualquer assimetria percebida pela família, pelo pediatra ou durante a avaliação escolar deve ser examinada adequadamente.
O que pode acontecer se a escoliose não for tratada?
A evolução varia de acordo com a magnitude da curva e com o crescimento restante. Curvas pequenas frequentemente permanecem estáveis após a maturidade esquelética e permitem vida normal, sem limitações importantes.
Curvas maiores, especialmente aquelas que ultrapassam aproximadamente 45 a 50 graus ao final do crescimento, podem continuar progredindo lentamente na vida adulta. Entre as possíveis consequências estão:
aumento progressivo da deformidade;
alteração da aparência e da imagem corporal;
maior frequência de dor nas costas na vida adulta;
desequilíbrio do tronco e limitação funcional em alguns pacientes;
impacto psicossocial e redução da qualidade de vida.
Comprometimento pulmonar clinicamente relevante é incomum nas curvas pequenas ou moderadas. Ele está relacionado principalmente a deformidades torácicas muito graves, frequentemente acima de 70–80 graus. Portanto, não é correto afirmar que toda escoliose provocará problemas respiratórios ou incapacidade no futuro.
Escoliose tem cura?
A escoliose pode ser controlada com acompanhamento, exercícios específicos, colete ou cirurgia, conforme a gravidade e o risco de progressão. Na maioria dos adolescentes, o diagnóstico não significa que haverá necessidade de operação.
A melhor estratégia é identificar o problema no momento adequado, estimar corretamente o risco de progressão e escolher o tratamento mais proporcional para cada paciente.
Se houver assimetria dos ombros, das costelas ou da cintura, ou suspeita de progressão durante o crescimento, procure um médico especialista em coluna para avaliação individualizada.
Referências selecionadas
Weinstein SL, Dolan LA, Cheng JCY, Danielsson A, Morcuende JA. Adolescent idiopathic scoliosis. The Lancet. 2008;371:1527–1537.
Weinstein SL, Dolan LA, Wright JG, Dobbs MB. Effects of bracing in adolescents with idiopathic scoliosis. New England Journal of Medicine. 2013;369:1512–1521.
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Scoliosis Research Society. Idiopathic Scoliosis: Patient Information.
US Preventive Services Task Force. Screening for Adolescent Idiopathic Scoliosis: Recommendation Statement and 2024 Literature Surveillance Report.
