1 de julho de 2026
health journal
Musculação para crianças e adolescentes: mitos, benefícios e cuidados.
Dr. Getúlio Morato - Médico do Esporte Infantojuvenil MEO Medicina
Por:

Poucos assuntos geram tanta insegurança no consultório quanto a musculação na infância e na adolescência. A pergunta que mais ouço dos pais é direta: o treino com peso pode atrapalhar o crescimento do meu filho? Por muitos anos, esse receio afastou crianças e jovens de uma prática que hoje se mostra segura e cheia de benefícios. Como pediatra, médico do adolescente e médico do esporte, considero fundamental esclarecer o tema com base no que a ciência realmente demonstra.
O treino de força prejudica o crescimento?
Essa é a maior preocupação dos pais, e a resposta da literatura científica é tranquilizadora: não há evidência de que o treinamento de força comprometa o crescimento de crianças e adolescentes. Ao contrário, as fases pré-púbere e púbere parecem ser justamente aquelas em que o esqueleto melhor responde à carga, com aumento da massa e da arquitetura óssea. O exemplo das ginastas de baixa estatura costuma ser mal interpretado. A estatura menor dessas atletas decorre da seleção natural das mais baixas, que levam vantagem nos movimentos acrobáticos, e não de um efeito do treino sobre as placas de crescimento.
Benefícios comprovados na infância e na adolescência
Crianças e adolescentes que treinam força com regularidade ganham força muscular, aumentam a massa óssea e a capacidade aeróbica, melhoram a composição corporal e a coordenação motora. Há também ganho na sensibilidade à insulina, o que torna essa modalidade uma aliada importante na prevenção da obesidade. Para a criança com sobrepeso, muitas vezes excluída dos esportes coletivos por baixo rendimento, o treino aumenta o gasto energético, a massa magra e, igualmente importante, a autoestima.
A força que protege contra lesões
Um dos principais fatores de risco para lesões é a falta de força muscular e óssea. Jovens que incorporam o treino de força se machucam menos e se recuperam mais rápido. Em esportes com saltos, contato físico e mudanças bruscas de direção, esse efeito protetor é ainda maior e pode reduzir pela metade as lesões por sobrecarga. As meninas merecem atenção especial, já que o fortalecimento muscular diminui o risco de lesão do ligamento cruzado anterior, comum após o estirão puberal.
Sinais de alerta que merecem atenção
O excesso de treino também traz riscos, e cabe ao pediatra ficar atento.
Da tríade da mulher atleta ao RED-S
Por muitos anos falamos em tríade da mulher atleta, definida pela combinação de distúrbios alimentares, amenorreia e baixa massa óssea. Desde 2014, o Comitê Olímpico Internacional passou a adotar um conceito mais abrangente, a deficiência energética relativa no esporte, conhecida como RED-S e atualizada para REDs no consenso de 2023. A mudança importa porque coloca no centro do problema a baixa disponibilidade energética, situação em que a ingestão calórica não acompanha o gasto do treino somado às demandas do crescimento. O modelo atual reconhece que meninos também são afetados e que as repercussões vão muito além dos ossos e do ciclo menstrual, alcançando metabolismo, imunidade, saúde cardiovascular, humor e desempenho. Em adolescentes o alerta é redobrado, pois é a fase crítica de formação óssea, e identificar cedo os sinais de baixa energia disponível, ajustando a alimentação antes de qualquer redução de treino, é a conduta mais eficaz.
Vigorexia e anabolizantes
A insatisfação constante com o corpo pode indicar vigorexia, um transtorno que favorece o uso indevido de suplementos e de esteroides anabolizantes. Ganho muscular rápido em regiões pouco treinadas, como o pescoço, além de irritabilidade, insônia e dietas muito restritivas, são sinais que pedem investigação e acompanhamento multidisciplinar.
Como começar com segurança
O treino deve ser supervisionado por um profissional de educação física qualificado e ajustado à idade, ao sexo e aos objetivos de cada jovem. A Organização Mundial da Saúde recomenda exercícios que fortaleçam músculos e ossos ao menos três vezes por semana, sempre com repouso adequado entre as sessões. A técnica correta importa mais que a carga, e a progressão precisa ser gradual. Suplementos raramente são necessários nessa idade, pois uma alimentação equilibrada costuma suprir todas as necessidades.
O papel do pediatra não é autorizar nem proibir, e sim acompanhar. Treino de força bem orientado é seguro, eficaz e prazeroso, e deve fazer parte da rotina de atividade física de crianças e adolescentes. Começar cedo, com prazer e sem dor, aumenta muito a chance de o exercício se tornar um hábito que acompanha a pessoa por toda a vida.
por Getúlio Bernardo Morato Filho é pediatra, com área de atuação em medicina do adolescente e médico do esporte, e integra o Corpo Clínico do MEO. É autor do capítulo Treinamento de Força em Crianças e Adolescentes, do Tratado de Pediatria.
