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7 de julho de 2026

health journal

O mito da "bursite" no quadril: O que é, afinal, a tendinopatia glútea?

Gustavo Gonçalves - Coordenador da Fisioterapia MEO Medicina

Por:

Muitas pessoas, especialmente mulheres acima dos 40 anos, convivem com uma dor persistente na lateral do quadril que parece piorar ao deitar de lado ou subir escadas. Por décadas, esse desconforto foi rotulado quase automaticamente como "bursite trocantérica". No entanto, a ciência moderna revela que a bursa — aquela pequena bolsa de amortecimento — raramente é a vilã principal.

Na grande maioria dos casos, o verdadeiro culpado é a tendinopatia glútea, uma condição que afeta os tendões dos músculos que estabilizam nossa bacia. Entender essa mudança de diagnóstico é o primeiro passo para um tratamento que realmente funciona, deixando para trás as infiltrações paliativas e focando na recuperação da saúde do tecido.


O que é, afinal, a tendinopatia glútea?

Para entender o problema, imagine os tendões como cordas resistentes que conectam os músculos aos ossos. No quadril, temos os músculos glúteo médio e glúteo mínimo. Eles não servem apenas para a estética; sua função vital é manter a pelve nivelada quando caminhamos ou ficamos em um pé só. A tendinopatia ocorre quando essas "cordas" sofrem um processo de desgaste ou falha na reparação após serem excessivamente pressionadas. Diferente da antiga ideia de uma inflamação simples (a bursite), a tendinopatia é uma resposta do tendão a cargas que ele não consegue suportar, resultando em mudanças na sua estrutura interna que geram dor e fraqueza.


Quem são as pessoas mais afetadas?

A ciência mostra que a tendinopatia glútea é a forma mais comum de dor lateral no quadril, atingindo significativamente mais mulheres do que homens, com uma proporção que pode chegar a 4 para 1. O risco aumenta após os 40 anos, muitas vezes associado a mudanças hormonais e biomecânicas. Um fator determinante mencionado no artigo é a coxa vara, uma característica anatômica onde o ângulo do osso da coxa (fêmur) favorece uma maior pressão dos tendões contra o osso do quadril. Além disso, o sedentarismo ou, inversamente, aumentos súbitos na carga de exercícios sem o devido preparo, são gatilhos frequentes para o início dos sintomas.


O mecanismo do problema: Tensão e Compressão

A explicação sobre como o tendão adoece, não é apenas o "puxar" do músculo (tensão) que causa o dano, mas principalmente a compressão. Imagine o tendão sendo esmagado contra a proeminência óssea do quadril (o grande trocanter). Isso acontece sempre que levamos a perna em direção à linha média do corpo. Posições comuns do dia a dia são extremamente compressivas: cruzar as pernas ao sentar, ficar em pé "pendurado" em um dos quadris ou dormir de lado sem proteção. Além disso, quando os glúteos estão fracos, outros tecidos como a banda iliotibial (ITB) ficam sobrecarregados, aumentando ainda mais esse "esmagamento" do tendão glúteo contra o osso.


O caminho para a recuperação: Reabilitação e Carga

O tratamento moderno abandonou o repouso absoluto. O segredo está na gestão de carga. Inicialmente, o foco é o alívio da dor através de exercícios isométricos — contrações musculares sem movimento que ajudam a "acalmar" o sistema nervoso e o tendão. À medida que a dor diminui, progredimos para exercícios de força mais pesados e lentos, que ensinam o tendão a suportar tensão novamente. Um ponto crucial é a reeducação do movimento: corrigir a inclinação da pelve durante a caminhada e evitar que o joelho "caia" para dentro, o que reduz drasticamente a compressão nociva sobre o tendão.


Implicações e ajustes no dia a dia

A tendinopatia glútea impacta tarefas simples, mas fundamentais. Para quem sofre com isso, pequenas mudanças fazem uma diferença enorme. Ao dormir, é recomendado colocar um travesseiro firme entre os joelhos para evitar que a perna de cima "caia" e comprima o quadril. Ao sentar, deve-se evitar cruzar as pernas e preferir cadeiras que mantenham os quadris um pouco acima dos joelhos. Ao ficar em pé, a regra de ouro é distribuir o peso igualmente nas duas pernas, evitando o vício de projetar o quadril para o lado. Essas modificações não são apenas para aliviar a dor, mas para criar um ambiente onde o tendão possa finalmente cicatrizar.


Retomando o controle

A dor lateral no quadril não precisa ser uma sentença de limitação crônica. Ao compreendermos que o problema é mecânico e estrutural — e não apenas uma inflamação passageira — mudamos a forma de tratar. O sucesso a longo prazo depende da combinação entre o conhecimento do paciente sobre as posições de risco e um programa de exercícios que fortaleça os glúteos de forma inteligente. Compreender a biomecânica do próprio corpo é a ferramenta mais poderosa para vencer a tendinopatia e retomar uma vida ativa e sem dor.

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